
Estátua da escritora Clarice Lispector e seu cão Ulisses no Leme, Rio de Janeiro. (Fernando Frazão/Agência Brasil)
Para recordar Clarice Lispector, nascida em um dia como hoje há 98 anos, publicamos um texto de seu livro “Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres”. A Hora de Clarice é um evento lançado em 2011 pelo Instituto Moreira Salles, com a proposta de fazer com que a data de nascimento da escritora seja comemorada e faça parte do calendário cultural do Brasil e de outros países.
“Alivia a minha alma,
faze com que eu sinta que Tua mão está dada à minha,
faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade,
faze com que eu sinta que amar é não morrer,
que a entrega de si mesmo não significa a morte,
faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária,
faze com que eu não Te indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta,
faze com que me lembre de que também não há explicação por que um filho quer o beijo de sua mãe e no entanto ele quer e no entanto o beijo é perfeito,
faze com que eu receba o mundo sem receio, pois para esse mundo incompreensível eu fui criada e eu mesma também incompreensível,
então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la,
abençoa-me para que eu viva com alegria o pão que eu como, o sono que durmo,
faze com que eu tenha caridade por mim mesma, pois senão não poderei sentir que Deus me amou,
faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha, amém.”
Clarice Lispector