Nos dias 14 a 17 de fevereiro, às 19h, no Centro Cultural do Brasil em Barcelona, o Prof. Dr. João Eduardo Hidalgo falará dos grandes representantes do cinema brasileiro clássico e novo, que depois abrirão portas para os autores contemporâneos: Mário Peixoto, Nelson Pereira dos Santos, Glauber Rocha, Ozualdo Candeias e Suzana Amaral.

Hidalgo é professor do Departamento de Ciências Humanas da Faculdade de Artes, Arquitetura, Comunicação e Design da Universidade Estadual Paulista e pós-doutorando pela Filmoteca da Catalunya.

O evento tem entrada livre, por ordem de chegada, de acordo com a capacidade da sala e as limitações governamentais. Não é necessária reserva.

O cinema nasceu em 1895 como pesquisa científica, os irmãos Lumière faziam o registro de partes da realidade, o que enquadravam eram (supostos) registros científicos do mundo empírico. Uma posição que pode parecer muito ingênua hoje, apoiada em uma cultura audiovisual desenvolvida, mas que na época encontrava eco no meio acadêmico, que a princípio não viu grande importância, nem deu vida longa para o cinema.

Somente com a introdução da ficção no cinema, através de Georges Méliès e suas mágicas delirantes, que nos levaram à lua e as viagens impossíveis, é que o cinema deu o passo fundamental para caracterizar-se como mais um ramo das artes visuais.

No Brasil, o cinema foi apresentado como curiosidade pela primeira vez no Rio de Janeiro, em 1896[1], na Rua do Ouvidor, foram exibidos alguns curtas entre eles A saída da fábrica dos Irmãos Lumière. O casal Apolônia Pinto e Germano Silva trouxe da Europa o legítimo Cinématographe Lumière, como fizeram saber, apresentaram em 15 de julho de 1897, no Teatro Lucinda no Rio de Janeiro, um programa de ‘quadros’ portugueses e outros de várias procedências, da Franca e dos Estados Unidos. Em 1898 já se abre o primeiro cinema no Rio de Janeiro, chamado de Salão de Novidades Paris no Rio, os irmãos italianos Paschoal e Affonso Segreto são os proprietários e fazem filmagens no Brasil. Usam o Animatographo Lumière, e proclamam que “procuravam atrair o espectador não só pelo que teria a ver, mas também pelo quase que conseguiria ouvir, apalpar, cheirar e comer”, são apresentados pela primeira vez curtas de Georges Méliès no Brasil.

Nos anos 1910, surgem alguns pioneiros que contam suas pequenas histórias, o mais notável é José Medina (1894-1980) que faz seu Exemplo regenerador em 1919[2]. Medina que começou a carreira como ajudante de projecionista dirigiu vários curtas e em 1929 um longa de grande sucesso Fragmentos da vida. Nos anos 1920 surge uma figura mítica do cinema brasileiro Humberto Mauro (1897-1983) que torna-se o primeiro grande diretor brasileiro, com uma obra longa e coerente. Uma figura muito famosa do início do cinema brasileiro é Mario Peixoto (1908-1992), com um único e particular filme Limite de 1931. Estas figuras seguem no panorama cinematográfico brasileiro nos anos 1940 e nos 1950, o Brasil funda uma indústria do cinema com a Companhia Cinematográfica Vera Cruz, que tem uma vida fugaz de 1949 a 1954. Para esta aventura vem para o Brasil o cineasta Alberto Cavalcanti (1897-1982), brasileiro radicado em Paris, onde dirigiu filmes como Rien que les hueres (1926) e depois participou da escola de documentários inglesa realizando entre eles Coal face (1936), nesta jornada brasileira destaque para o filme Simão, o caolho (1952), onde ele retoma o argumento de seu episódio no filme inglês Dead of night de 1945.

Nos anos 1960, o Brasil entra na modernidade cinematográfica e ve o surgimento do seu grande representante internacional, Glauber Rocha (1939-1981). Figura central do Cinema Novo Brasileiro, sua obra mais conhecida é Deus e o diabo na terra do sol (1964), que mostra o dia a dia do sertão baiano, com seus curandeiros, bandoleiros e sua gente sofrida, a trilha musical é a parte forte do filme, ela também é de autoria de Glauber.

Desta época também é uma das grandes obras do cinema brasileiro o filme Vidas secas, do mestre de Glauber, o cineasta e professor Nelson Pereira dos Santos (1928-2018), que montou o primeiro longa de Glauber Rocha Barravento (1962), um filme com muitos problemas.

Dentro do Cinema Novo um grupo produz com os poucos meios que possui, e por se localizar em uma área um pouco (hoje muito) degradada da cidade de São Paulo é chamado de Cinema da Boca do Lixo. Um dos grandes representantes do grupo é Ozualdo Candeias (1922-2007), que faz um primeiro filme tão poético como estranho, dentro da filmografia brasileira A margem, em 1967. O filme tem ecos de Pasolini, que entende e fala a mesma linguagem dos marginais e dos que não tem lugar em uma sociedade capitalista e classista, que se firma num momento econômico eufórico brasileiro.

Os filmes que farão parte do ciclo são:

  • Limite de Mário Peixoto, 1931; Ganga Bruta 1933 de Humberto Mauro; cinema mudo brasileiro;
  • Vidas secas de Nelson Pereira dos Santos, 1963, adaptação do romance de Graciliano Ramos (1892-1953);
  • Deus e o diabo na terra do sol de Glauber Rocha, 1964;
  • A margem de Ozualdo Candeias de 1967;
  • A hora da estrela de Suzana Amaral de 1985.

Bibliografia:

BENTES, Ivana (org.) Glauber Rocha. Cartas ao mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

CAVALCANTI, Alberto. Filme e realidade. São Paulo: Martins Fontes, 1947.

DAHL, Gustavo et ali. Cinema moderno, cinema novo. Rio de Janeiro: José Alvaro Editor, 1966.

GOTLIB, Nádia Batella. Clarice, uma vida que se conta. São Paulo: Editora Ática, 1995.

KADAYAN, Fábia Giordano Guilherme. Humberto Mauro, o mestre do cinema brasileiro: Lábios sem beijo, Ganga bruta e O canto da saudade. São Paulo: UNESP, 2019, Dissertação de mestrado.

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MELO, Saulo Pereira de. Mário Peixoto. Salvador: Casa Rui Barbosa, 1996.

PASOLINI, Pier Paolo; ROHMER, Eric. Cine de poesía contra cine de prosa. Barcelona: Anagrama, 1970.

PUPPO, Eugenio. Ozualdo Candeias 80 anos. São Paulo: Centro Cultural Banco do Brasil, 2002.

ROCHA, Glauber. Revisão crítica do cinema brasileiro. São Paulo: Cosac & Naif, 2003.

______. Deus e o diabo na terra do sol. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965.

SARACENI, Paulo César. Por dento do Cinema Novo. Minha viagem. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993

VIANY, Alex. Introdução ao cinema brasileiro. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1959.

______ (Coord.). Humberto Mauro, sua vida, sua arte, sua trajetória no cinema. Rio de Janeiro: Embrafilme, 1978.

Xavier, Ismail. O cinema brasileiro moderno. São Paulo: Paz e Terra, 2001.

[1] VIANY, Alex. Introdução ao cinema brasileiro. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1959, p.19.

[2] VIANY, Alex. Op. Cit., p.45,

[3] KADAYAN, Fábia Giordano Guilherme. Humberto Mauro, o mestre do cinema brasileiro: Lábios sem beijo, Ganga bruta e O canto da saudade. São Paulo: UNESP, 2019, Dissertação de mestrado, p. 42.

[4] ROCHA, Glauber. Revisão crítica do cinema brasileiro. São Paulo: Cosac & Naif, 2003, p. 50.

[5] DAHL, Gustavo et ali. Cinema moderno, cinema novo. Rio de Janeiro: José Alvaro Editor, 1966, pp. 209-210.

[6] SARACENI, Paulo Cesar. Por dento do cinema novo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993, p.161.

[7] PASOLINI, Pier Paolo; ROHMER, Eric. Cine de poesía contra cine de prosa. Barcelona: Anagrama, 1970, p. 10.

[8] PUPPO, Eugenio. Ozualdo Candeias 80 anos. São Paulo: Centro Cultural Banco do Brasil, 2002, p. 52.

[9] GOTLIB, Nádia Batella. Clarice, uma vida que se conta. São Paulo: Editora Ática, 1995, pp.465-467.